segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Estive lendo o último número da revista Le Monde Diplomatique (Ano 6/número 67), dedicado à questão da Violência Urbana no Brasil. Há muito bons artigos ali, mas chamou-me à atenção um pequeno artigo com números atualizados sobre o extermínio de jovens negros no Brasil.

O nome artigo é "A cor dos homicídios no Brasil", de Julio Jacobo Waiselfisz.

No artigo podemos ler que entre 2002 e 2010 houve a manutenção dos índices globais de homicídio no país, porém com um aumento do número de jovens negros do sexo masculino e uma queda do número de jovens brancos do sexo masculino. Em 2010 são assassinados 132% mais negros do que  brancos, e em 2002 eram 65% mais negros do que brancos. Assim, o processo de criminalização da população negra no Brasil caminha a passos largos. O nosso racismo se expressa fundamentalmente e inegávelmente pela questão criminal.

E vocês me perguntarão: você não curte carnaval? É que eu acabo de voltar da Bahia, onde estive no trio elétrico de Moraes Moreira no último dia 9, no circuito Barra-Ondina, acompanhando o meu marido, o percussionista Reppolho. É a segunda vez que vou a Salvador, a outra fora do carnaval. Conhecer finalmente a Bahia me fez refletir muito sobre o Brasil. Vários elementos presentes no carnaval de lá que nos mostram outras faces da imensa desigualdade e hierarquização da sociedade brasileira. Ver todas aquelas pessoas de classe média uniformizadas, sentadas nos camarotes "assistindo" o trio passar. Ter o desprazer de ver o camarote de Gilberto Gil, de uma cafonice ímpar. Tinha até trapezista e uma decoração com dourados. Com esses camarotes o carnaval reedita alguns salamaleques da corte imperial: os artistas se saúdam, prestam homenagens uns aos outros, uma coisa entre nobres, de visconde para Rei, coisa assim. Voltei inspirada a conhecer mais sobre o fim da escravidão no Brasil, ou o fim sem fim da escravidão. E é claro: não posso deixar de falar da corda. Ir atrás do trio elétrico hoje pode ser ir parar atrás de uma corda e ainda ter que pagar por isso. Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, cantava o jovem Gilberto Gil ... Ou melhor: ia. Hoje os vivos têm que comprar um abadá. É claro que temos também camarotes no carnaval do Rio e o desfile das Escolas de Samba já perdeu quase todo o seu encanto por razões análogas. Mas voltando à Bahia: Moraes Moreira está entre os que não compactua esse estado de coisas e atrás do seu trio elétrico todo mundo vai. É o que eles chamam de pipoca.


Um comentário:

  1. Oi Cristina,
    comentando sua experiência em Salvador tive a oportunidade de ver na tv reportagens que cobriram o que acontecia nas áreas onde o povo de Salvador pula o carnaval e o índice de violência dessas regiões aumenta muito na época do carnaval! Claro, eles são excluídos de uma das maiores festas de carnaval do Brasil!!!!
    Em fim, a exclusão, o racismo, a comercialização das festividades populares provocam resistências, mas ninguém vê dessa forma, o que dizem é que o povo pobre está muito violento!!!!! As notícias param por aí!!!

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