segunda-feira, 8 de janeiro de 2018




O que a rebelião no presídio semi-aberto em Goiânia nos faz pensar

por Cristina Rauter

Os acontecimentos de Goiânia ilustram mais uma vez a extrema crueldade com relação aos mais pobres no Brasil, já que os que estão ali são oriundos, em sua maioria, dos estratos mais pobres da população. Um dos presos mortos tinha 21 anos, era primário e recém condenado por roubo.
 Dois agentes penitenciários também pereceram, possivelmente responsabilizados pelo que não era de sua alçada resolver. Mais uma vez, mulheres, mães, esposas, irmãs, acompanham os acontecimentos em desespero sem despertar muita compaixão, já que o pensamento dominante é o de que os mortos e feridos mereceram o castigo por terem cometido crimes, opinião externada por um conhecido político apoiador confesso de torturadores. No Brasil do pós inpeachment todo esse zelo punitivo é a um só tempo cínico e trágico.
A prisão e sua naturalização, a tortura e os maus tratos e sua naturalização, fornecem um triste retrato da sociedade em que vivemos. Um presídio semi-aberto só é palco de rebeliões quando a condição de semi-aberto não é respeitada - com frequência os presos teoricamente em regime semi-aberto não estão trabalhando como deveriam, impedidos por emaranhados burocráticos ou pelo que podemos chamar de "militância em prol do encarceramento" que pode influenciar os juízes da execução no país que tem a terceira maior população carcerária do mundo. Pode-se estar num presídio semi-aberto e na verdade estar num "semi-fechado" como os presos preferem chamá-lo, face à dificuldade de efetivamente poder trabalhar e retornar ao presídio após um dia de trabalho. No Estado do Rio de Janeiro a farsa foi longe demais: presos passam o dia numa praça próxima ao presídio sem ter o que fazer, e sem almoço. Retornam ao presídio ao fim do dia, para ao menos fazer uma refeição e dormir. É a versão carioca da progressão de regime, que afeta somente os mais vulneráveis.

Seminário "Precisamos falar de Antonio Lancetti"

Homenagem ao autor de "Clínica Peripatética", obra super importante para pensarmos outros modos de trabalhar com populações marginalizadas e criminalizadas, opondo resistência à solução penal dos conflitos sociais, predominante no momento brasileiro atual. O seminário aconteceu no Auditório do IPSI, Campus do Gragoatá, Uff, dia 30 de novembro de 2017. Mais detalhes na página do TRANSCRIM no facebook. 



sábado, 1 de abril de 2017



Em busca das personalidades criminosas
Cristina Rauter

Uma das ideias muito fecundas de Foucault a propósito do fenômeno do crime nas sociedades contemporâneas, é a de que através da crença na existência de um fenômeno como "a criminalidade" em sentido genérico, todas as formas de oposição à lei são transformadas num fenômeno unitário e consideradas como uma espécie de anormalidade, ou patologia. Elas perdem o parentesco com a contestação legítima das instituições e das leis como fenômeno político, que aliás expressa uma saúde da vida coletiva, não uma patologia. Falamos em criminalização dos movimentos sociais: sim, esse tipo de fenômeno esteve presente desde o início, desde a origem das insituições do judiciário nas democracias ocidentais. Especialmente os crimes contra o patrimônio, que juntamente com o tráfico de drogas são os que mais levam hoje indivíduos às prisões cariocas, são crimes diretamente relacionados à contestação do regime capitalista que vivemos e no entanto, essa relação indissociável é escamoteada através da noção genérica de "criminalidade". 
A noção de delinquência, mostrou também Foucault, está ligada à produção de uma individualidade fadada ao crime. O crime, seria fruto de um tipo especial de personalidade. Desde Lombroso, o discurso da criminologia positivista não para de produzir esssa personalidade criminosa. A Psicologia mais recente, seja inspirada na psicanálise, seja inspirada na neurociência, tem construído um conjunto discursivo que vai na mesma direção: a da encontrar e descrever  personaliades criminosas. 
A razão dessa busca se ligou em parte a um ideial de medir o grau de periculosidade dessa personalidade. Ora, o código penal brasileiro de 1940, incorporou esse novo instrumental, que permitia não mais julgar de acordo com o ato cometido, mas de acordo com a personalidade. Esse ideal se faz presente na adoção das medidas de segurança, a princípio impostas também a semi-imputáveis e não somente a inimputáveis como ocorre hoje, a partir de mudança ocorrida em 1984. Apesar de não haver em nosso arcabouço jurídico atual penas indeterminadas, cujo fim repousa não num limite estabelecido no momento da aplicação da pena pelo juiz, mas numa avaliação técnica de seu comportamento durante o cumprimento da pena e de sua personalidade, essa mentalidade avaliadora da periculosidade está muito presente em vários momentos, no julgamento e na execução penal. 
Por sinal, a presença de psicólogos (cada vez menor) nos presídios se liga à realização dessas avaliações de periculosidade. Não estão nos presídios para dar assistência psicológica aos presos, por exemplo, embora muitos o façam e desejem fazê-lo. A função, prescrita na lei de execuções penais, é a de atuar na chamada "individualização da pena", mas acredito que na prática, ela se liga muito mais à individualização dos direitos. Aos perigosos, menos benefícios, e penas mais longas. Aos não perigosos, livramento condicional, progressão de regime,  e outros direitos. 
Em sua versão mais benigna, individualização da pena seria adequar a pena à individualidade do preso, inclusive atendendo às suas necessidades. Se analfabeto, iria aprender a ler, se especializado em algum tipo de trabalho, poderia ser aproveitado em alguma ocupação no cárcere. Mas na verdade, individualização da pena foi sempre um conceito relacionado à avaliação da periculosidade do preso. Ela sempre teve um sentido de localizar os perigosos e fazer com que mereçam penas mais longas e menos benefícios, seguindo a tendência internacional trazida pelos discursos "científicos" que hoje povoam o judiciário.
É preciso salientar que a mentalidade avaliadora não está presente apenas nos psicólogos, pois a noção de periculosidade não é uma categoria psicológica. Ela pode até ser alimentada e tornada mais complexa por saberes psicológicos que o juiz possa adquirir ou pelos laudos feitos por psicólogos. Mas ela é uma categoria híbrida, formada de um conjunto mal articulado de saberes para dotar os juizes e outras autoridades da execução penal de uma ferramenta: a de julgar personalidades e prever possibilidades de reincidência. Por vezes esse julgamento da personalidade é feito baseado não na observação concreta do prisioneiro, mas na gravidade do delito que ele praticou. Se praticou um delito considerado grave - e neste momento depende muito do que a autoridade considera grave, de sua concepção particular - o delito permanece como uma marca indelével, a autorizar que seja mantido por tempo maior no cárcere. Por exemplo: se o juiz considerar grave o tráfico de drogas, tenderá a negar benefícios a quem praticou esse delito.
A verdadeira guerra que se trava entre psicólogos e juizes no campo penal já há algum tempo se liga a muitos fatores, mas diz respeito a esse uso pragmático que o judiciário quer fazer dos laudos psicológicos tornando-os capazes de prever o futuro no que diz respeito ao comportamento do preso depois de liberto.  Essa incômoda categoria de periculosidade também é responsável por esse difícil diálogo entre a psicologia e o judiciário. Apesar de tornados desnecessários os laudos para o livramento condicional, por uma lei de 2003, essa "lei nunca pegou" (expressão bem brasileira) pois o ministério publico dos estados e os juizes nunca deixaram de pedir exames criminológicos para embasar suas decisões, quer no caso do livramento condicional, quer no da progressão de regime (expressa na lei de execução penal). No que se refere aos laudos de periculosidade ou exames criminológicos, apesar da diminuição do número de psicólogos e outros técnicos nas prisões, esses dispositivos seguem sua carreira nos cárceres sem serem incomodados, continuando a ser solicitados. A demora em cumprir essa exigência contribui também, na prática, para o aumento das penas.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Criminologia e Subjetividade: Disciplina do Curso de Graduação em Psicologia - Uff

Início das Aulas: 28 de março, das 14 às 18 horas.
Estaremos discutindo a situação do Brasil como quarta (ou terceira) população carcerária do mundo. A situação vivida pelos presos e suas famílias. A especificidade do Brasil no contexto do Estado Penal. O racismo relacionado aos processos de criminalização. Mulheres encarceradas. Manicômios Judiciários.
Exibiremos filmes e traremos convidados para falar de temas específicos, como: a situação das mulheres encarceradas. Os manicômios judiciários.
Convidados já confirmados:
Vilma Diuana, Maria da Conceição Nascimento, Renata Costa Moura.
Iniciaremos o curso com a discussão do Texto: O Nascimento da Criminologia no Brasil.
Rauter, Cristina. Criminologia e Subjetividade no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 2003.
Acompanhe por esse Blogg o desenrolar do curso!

sábado, 12 de novembro de 2016

Texto de Simone Menezes lido parcialmente no Seminário.

Colocamos aqui disponível o texto de Simone Menezes que foi lido no Seminário "Clínica Transdisciplinar e Engrenagens Carcerárias II". Tivemos autorização da autora para disponibilizar o mesmo e achamos de suma importância a sua leitura.




Família Carcerária - População Invisível



                                                                                           “Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela.
                                                                                                     E oculta mão colora alguém em mim.”
                                                                                                     Fernando Pessoa.



Sejam bem-vindos ao mundo daqueles que mesmo sendo, não são!
Seres invisíveis, destituídos de certezas e buscando equilíbrio a cada parte da etapa cumprida, na tentativa de não submergir ao caos que é viver sem futuro.
Esse é um minúsculo retrato da família carcerária, que povoa as portas das unidades prisionais deste país; na sua maioria, mulheres.
Como caminhar nesse terreno pantanoso que é o mundo das prisões?
Como sobreviver a ela?
Como manter o amor-próprio ante a negação contínua de respeito?
Como retornar a vida livre resguardando um mínimo de autoestima?
São respostas que buscamos no nosso dia a dia, para nos mantermos vivas, para chegarmos ao porto seguro que é a reorganização familiar pós-martírio.
Não é uma escolha fácil caminhar ao lado dos que foram punidos, não é uma tarefa lúdica ser esposa, mãe, irmã de um cidadão preso; antes de tudo, o exercício contínuo de autoestima é ferramenta primordial para manter-se o equilíbrio pessoal e familiar.
Caminhar, por escolha própria, por veredas que não são as suas e aceitar com carinho as futuras intempéries do tempo, é uma tarefa difícil e arriscada; é um grande enigma a ser resolvido.
Amar um cidadão preso é um exercício de doação, é ultrapassar a sua própria pessoa e eleger o outro como objetivo prioritário, é vivenciar a incondicionalidade.
Estar ao lado de alguém apartado do convívio social é abrir mão de sonhos possíveis, é se permitir aprender com os erros que não foram seus e investir continuamente na sinalização de que é possível se reescrever a própria história.
São mulheres que vivem o dia de hoje como se fosse o último, como se devessem absorver tudo em um só momento, por não saberem como será a continuação do que está sendo vivenciado.
Mulheres arrimos de família, sustentáculos de famílias desmembradas, sinalizadoras de mudanças possíveis, buscando diariamente criar formas de ter uma vida minimamente normal.
A família do preso nunca é vista, não é percebida nas diferentes etapas punitivas aplicadas ao seu familiar.
Nessa perspectiva, nem a sociedade, nem o Judiciário, nem o Executivo ou mesmo o Legislativo percebem essa população invisível que permeia as prisões; é como se o preso fosse um ser unitário, destituído de laços familiares, como se ele não fizesse parte de algo maior do ele mesmo, que é a sociedade. Não se percebe na pena aplicada o desdobramento compulsório da mesma, sobre a família do apenado, não somos percebidas como parte da sociedade, pelo fato de estarmos ao lado de quem optou por caminhos negativos; só somos percebidas no contexto social quando negamos a nossa própria história, quando mentimos ou omitimos uma parte das nossas vidas.
No imaginário coletivo, a opção pelo que o difere da “normalidade” é sempre uma opção de caráter, o que é basicamente falacioso; existem vários porquês para tal opção e o amor é um deles.
As famílias vivem em um mundo dual, assumindo diferentes papéis, para conseguirem a aceitação social. Muitas mulheres alçadas subitamente, à condição de arrimo, na maioria das vezes escondem seus vínculos com a prisão para poderem conseguir ou manter um posto de trabalho; um exercício
constante da mentira ou da omissão para que possam permanecer ativas e sustentarem seus filhos. Comumente perdem seus empregos quando os patrões descobrem seus parentescos; são vistas como cúmplices ou possíveis delinquentes, algo cruelmente “Lombrosiano”, é como se tivéssemos características físicas que nos imputasse o descrédito como pena acessória, à pena que compulsoriamente pagamos, é como se possuíssemos uma lepra moral.
Quando ocupam cargos de chefia, seus companheiros presos são relegados ao limbo, pois para serem aceitas devem negar o amor que sente pelo diferente.
Crescer profissionalmente sendo familiar de um preso requer uma grande autoestima, requer o abate de diversos “leões” diários, para continuar se percebendo possível, apesar do que pensam sobre nós.
Paulo Freire muito sabiamente diz que: “Nenhuma dicotomia é capaz de nos explicar. Não somos apenas o que adquirimos, nem tampouco o que herdamos. Estamos sendo a tensa relação entre o que herdamos e o que adquirimos.”
Quando não moram nos núcleos ou cinturões de pobreza do Estado; onde a comunidade às conhecem; muitas mulheres vivem no ‘penoso mundo da negação’; negam o que são para serem aceitas pelos vizinhos, conhecidos e colegas de escola e trabalho, transformam-se em personalidades duais. Quando saem para visitar o seu preso, acondicionam as sacolas de “sucatas” em bolsas de viagem para que os vizinhos não fiquem curiosos, sentem vergonha da história em que são participantes involuntárias; a pena não é nossa, mas é como se fosse tal o peso do julgamento que fazem de nós, é como se o nosso sentimento fosse criminoso e o amor que possuímos fosse vergonhoso por não sê-lo por alguém “normal”, e por isso devemos ser punidas diariamente por nossa “má escolha”.
Aos vizinhos muitas, são viúvas ou separadas; quando se dizem casadas, os maridos trabalham em outro Estado ou estão hospitalizados; ao ouvirem comentários cáusticos sobre presos e as prisões, sentem-se humilhadas, é como se elas mesmas fossem as criminosas. É difícil se ter duas vidas; ser-se e negar-se ao mesmo tempo; Fernando Pessoa confirma nossos sentimentos: “Vive do que nega e nega aquilo que vive”.
Os filhos aprendem desde cedo que o pai está no hospital e quando já entendem o peso da masmorra são orientados, na maioria das vezes, a também se auto negarem. Dizem aos professores, vizinhos e colegas que seus pais estão viajando ou estão separados da mãe, e sentem com isso, desde pequenos, que não fazem parte da grande história de uma sociedade e sim, vivem obrigatoriamente, à margem do que são ou do que poderiam ser.
Muitas mulheres estudam, mas seus professores e colegas não as conhecem; delas, só veem a face construída sobre a “vergonha imposta”, maquiagem usada para a aceitação social.
Muitas vivem em morros e favelas, convivendo diariamente com a violência no batente das suas portas, observando; na maioria das vezes acuadas; aos desdobramentos de uma guerra que não é sua. Mas, ao mesmo tempo a comunidade é o “local seguro” em que elas podem ser elas mesmas, onde não precisam fingir ou negar quem são e o que sentem; terreno conhecido, onde muitas possuem a mesma história de espera. Lá, são simplesmente comuns, lá são casadas com alguém, os filhos, tem um pai, e esse pai tem nome e seus vizinhos sabem para onde vão aos finais de semana.
O caos as torna livres!
A ida à prisão é sempre precedida de ansiedade e na saída sempre um sentimento, de pesar e impotência nos acompanha. Vivenciamos o amor em doses homeopáticas, um pouco a cada semana, como tentei traduzir nessa poesia que fiz para meu companheiro preso:

“DOMINGOS”

Os domingos, mesmo com chuva, são ensolarados.
Os domingos são mágicos, saborosos, consistentes.
Os domingos são poéticos, são acolhedores, são definitivos.
Os domingos são abençoados, são alegres, trazem paz.
Os domingos são fundamentais, são agregadores, imperativos.
Os domingos elevam, harmonizam, transformam.
Os domingos preenchem, os domingos esperam, os domingos sorriem.
Os domingos são inteligentes, tem humor, odor, sabor.
Os domingos acalmam, acolhem, realizam.
Os domingos são pérolas, músicas, risos.
Os domingos são especiais, únicos, dignos.
Os domingos me cura, me salva, me redime.
Nos domingos, vejo você!

É uma missão difícil construir relações estáveis ou equilibradas em uma vida dividida, onde os papéis são trocados conforme o cenário da ópera a ser apresentada; construir bases sólidas nessas condições é um prêmio reservado a poucos.
Eric Hobsbawm em seu livro “Sobre História”, escreve uma frase que se encaixa perfeitamente no nosso sentimento; “o pior é que passamos a nos habituar ao desumano, aprendemos a tolerar o intolerável”.
A prisão faz com que tenhamos de conviver com o intolerável e nos adaptarmos a ele; a mulher se sente obrigada a negar seus sentimentos, eleger a viuvez ou a separação como desculpa plausível. Vivem entre a realidade da prisão e a imensa necessidade de aceitação social para não verem se repetir entre os seus filhos a mesma história dos pais.
A falta de sensibilidade dos diversos setores da sociedade em perceber a família como parte importante de um processo de recondução de seu preso ao convívio social, faz com que essa família ganhe a invisibilidade como herança perpétua. É como se ainda fossemos relegadas aos “porões negreiros”, acorrentadas; o corpo preso e o coração a voar.
Vôo abissal!
Nunca sabem ao certo como será o que as esperam, todo dia é um dia mais perto da liberdade, e é isso que as move; mulheres que esperam!
Mulheres empurradas para a marginalidade, pela cegueira coletiva que se abateu sobre a sociedade e só perdem a sua invisibilidade quando são pegas exercitando o “ilegal”.
As suas dores anteriores, sua fome, a fome dos seus filhos, sua falta de futuro, a sua impotência, a marginalidade como caminho certo; isso não foi visto.
São seres invisíveis aos olhos sociais, não são percebidas como parte do tecido que compõe a sociedade.
Algumas conseguem emergir do caos, apesar de deixarem no caminho, pedaços de si mesmas, buscando nas migalhas de solidariedade que lhes é dada o estímulo para recomporem suas histórias.
Mas somos agentes sensibilizadoras natas, vivemos negociando paciência com os nossos presos, face ao desrespeito oferecido, pelo Estado na execução das penas.
Somos invisíveis também aos olhos do Judiciário que, nem de longe percebe o peso da prisão sobre a família e a carga de culpa que nos é oferecida como pena complementar.
Tanto o poder Executivo quanto o Judiciário, não percebem que a família é um excelente agente de sensibilização para seu preso, é ela que na maioria das vezes consegue diminuir a “fervura” nas prisões, agindo como intermediadoras junto ao Estado, nas questões que afligem os seus familiares apenados.
A sociedade se torna cruel quando o seu desejo de vingança, atinge gerações sucessiva do preso, oferecendo aos seus filhos, netos a mesma marca indelével com a qual marcou seus pais e avós. Não podemos ser tatuadas com a marca da irrecuperabilidade por atos que não foram praticados por nós. É preciso avançar na construção de uma sociedade melhor, estabelecer pontes para que famílias inteiras possam ser incluídas no tecido social; é preciso que a sociedade, através das suas instituições e das diversas instâncias governamentais, estimule a construção de programas e redes de serviços para o enfrentamento das questões que atingem essa população. Se faz necessário um esforço coletivo para desenvolver um trabalho de inclusão dessas famílias na vida produtiva, fortalecer seus vínculos afetivos, estimular a autovalorização através da criação de redes de serviços, tendo como atores estratégicos as instituições da sociedade civil e grupos governamentais, para o apoio e inclusão dessas famílias.
É preciso que o tema “A família do preso e a compulsoriedade das penas sobre a mesma”, seja incluído nas pautas de discussões governamentais em todo os seus níveis, através dos órgãos ligados aos direitos humanos, na formação de redes de orientação e serviços para o resgate de uma parcela da população. Esse é um trabalho preventivo, precisamos oferecer à família do preso uma opção diferente do caminho marginal, estimulá-la a perceber-se como ferramenta fundamental para o resgate da sua história familiar.
A invisibilidade dessa população alcança todos setores da máquina estatal; desde a falta de percepção que as incluam, por exemplo, no espaço físico das unidades prisionais, que não são projetadas observando a população flutuante (a família), que acorrem às suas dependência quase todos os dias da semana, demonstrando que não fazemos parte sequer de um estudo apurado do poder Executivo sobre o uso do espaço físico das prisões, como se o preso fosse ficar incomunicável durante todo o cumprimento da sua pena; à falta de um programa de apoio familiar que promova, ainda intramuros, e coordenado pelo Serviço Social das Secretarias de Administração Penitenciária nos Estados, reuniões de troca de experiências, fortalecendo os laços de amizade, criando uma rede de apoio e discussão sobre a realidade em que vivem e como serem o próprio veículo de mudança, entendendo assim, a sua co responsabilidade no processo de recondução do seu preso.
É preciso que o corpo técnico das prisões, interaja com a família; é necessário a percepção de que o homem preso está apartado do convívio “doméstico” mas, possui uma família que o acompanha; mesmo de longe e em doses homeopáticas; nas visitas semanais e a interação desses atores seria um caminho saudável para a diminuição de conflitos intramuros ou familiares.
É preciso provar que essas mulheres são geradoras de capital social, portanto, imperativo se faz uma proposta inclusiva, para que essa população se encontre, se entenda e se reconheça parte de um todo indivisível de forma a poderem transformar suas vidas e a vida da família a qual pertencem, pois as melhores soluções para os problemas dessa população invisível são aquelas em que as mulheres possam ser estimuladas a serem protagonista das próprias mudanças dentro de um processo de resgate familiar. É preciso que sejam estimuladas a se converterem em atores sociais responsáveis por gerar alternativas positivas para suas famílias. É necessário desenvolver atividades gregárias para que elas percebam que não estão sós e se reconheçam umas nas outras como pessoas possíveis de encontrarem soluções para as questões que as afligem.
Sabemos que muitas veredas há para se percorrer, temos que superar velhos conceitos, alterar paradigmas, estabelecer compromissos para mudanças estruturais, devemos transpor o conceito de “apartheid” e trabalhar a inclusão familiar.
Sem a percepção da família como um ator social importante, será difícil desenvolver um trabalho que promova uma diminuição da reincidência; é preciso que os órgãos da administração pública, ligados a esse tema : Ministério da Justiça, Secretaria Nacional de Justiça, Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Departamento Penitenciário Nacional -DEPEN, as Secretarias de Administração Penitenciária e de Direitos Humanos nos Estados, possam avançar além das fronteiras das pesquisas e discussões, para um trabalho efetivo de redução de índices de reincidência através da parceria com a família.
É necessário fazer um diagnóstico dessa população: quem são, onde moram, se trabalham, se tem filhos, do que vivem e como vivem, se estudam, tendo como objetivo, detectar, capacitar e incluir essas mulheres em programas de apoio familiar, como fome zero, de habitação, trabalho, educação, tendo como contra partida a formação de agentes sensibilizadores, que poderão passar a trabalhar na minimização de conflitos entre o Estado e o preso; é preciso estimular a formação de redes de apoio e serviços em parceria com as instituições da sociedade civil para capacitação e monitoramento desse público alvo.
É preciso estabelecer metas, e não apenas formas e fórmulas teóricas, mas estabelecer princípios que permitam buscar os elementos necessários às mudanças.
O compromisso com a reconstrução familiar é mais do que um trabalho preventivo contra a reincidência do preso ou da entrada do seu filho para o mundo marginal, mas o fortalecimento das bases familiares, é acima de tudo, uma estratégia eficaz de prevenção.
Somos mais de um milhão de mulheres que povoam as portas das unidades prisionais deste país, arrimos de família que lutam pela dignidade dos seus maridos e filhos, cidadãs brasileiras, pessoas possíveis e que precisam de apoio para, poderem se resgatar e resgatarem aos seus, mas a pena é extensiva a família e todos pagam conjuntamente.
É preciso acreditar no resgate do indivíduo, no fortalecimento dos laços afetivos, na possibilidade de mudanças qualitativas na relação do preso com o mundo através do melhor relacionamento da sua família com a sociedade; é preciso acreditar na capacidade do ser humano de escolher caminhos melhores.
“Por esse Brasil a fora, milhares de foragidos e presos formam um exército de marginalizados, condenados à violência e a humilhação que atinge também famílias e gerações sucessivas. Estigma: filho marginais, mulheres sem perspectiva”. William S. Lima.
É necessário ouvir a voz das prisões, é preciso ouvir as mulheres que esperam!
No novo milênio se faz necessário avançar, criar novas interfaces. Ouvir essa parcela da população não é compactuar com o que é desviante, e sim poder minimizar conflitos, reconhecer que todos são cidadãos brasileiros e possuidores de deveres e de direitos.
Nessa caminhada os meios de comunicação tem uma importância fundamental, pois são formadores de opinião e contribuem para a formação do pensamento crítico social, se faz necessário, portanto, que haja um trabalho de decodificação dessa população e um processo de esclarecimento da opinião pública sobre essas famílias e a importância profilática de um trabalho inclusivo. É preciso que essas mulheres, filhos, parentes, não sejam somente percebidos durante as rebeliões, quando os meios de comunicação os expõem nas portas das prisões, em estado de histeria por temerem o desdobramento violento de uma invasão pelos agentes de segurança.
É necessário que a mídia seja mais que um veículo de informação, e que possa usar o seu poder formador de opinião para decodificar e apresentar essa população a uma sociedade que não a conhece, fazendo com que surja uma percepção correta dessas famílias dentro de um contexto de cidadania; e que tenha o cuidado devido na forma de tratar essa população no conteúdo das suas matérias, para que não se confundam no conceito de família à cumplicidade e a marginalidade.
Só através desse apoio será possível fazer com que a sociedade veja que todos fazem parte da mesma história e a melhor forma de construí-la é perceber no “outro” o mesmo direito de ser cidadão e contribuir para a construção de uma sociedade mais harmônica.
Mas para tanto é preciso que haja mudanças na forma com que o Estado percebe essa população, é importante que os gestores públicos entendam que a família não é a extensão da “quadrilha” ou “cúmplices” nas ações isoladas, que seus filhos não precisam ter necessariamente o mesmo destino dos seus pais.
É tempo de avançar, criar uma nova forma de relacionamento do Estado com a sua população, enxergar esse enorme contingente de mulheres que esperam ser percebidas como parceiras co- responsáveis, na recondução do seu preso ao convívio com a sociedade.
É um tempo afirmativo, e fundamental é, ir além das velhas certezas, e fomentar novas reflexões, criar movimentos harmônicos de aproximação e percepção dessas famílias pelo restante da sociedade.
Mas, enquanto esperamos; nós mulheres invisíveis, continuaremos a depender de como amanhece as prisões para podermos tocar o nosso dia com o mínimo de esperança.
Mas, o amor nos conduz!


Simone Barros Corrêa de Menezes.

Agosto/2005

SEMINÁRIO "CLÍNICA TRANSDISCIPLINAR E ENGRENAGENS CARCERÁRIAS II"

Nós do grupo Transcrim agradecemos a presença de todos no nosso seminário "Clínica Transdisciplinar e Engrenagens Carcerárias II", todas as participações foram muito importantes e produtivas. As falas em nossa roda de conversa permitiram a reflexão e o debate além da fecunda troca de informações entre as diversas frentes que tratam deste tema tão pouco discutido e de certa forma quase um tabu em nosso sociedade.
Somente com a participação de todos foi possível a realização deste evento e o debate que sempre acrescenta a todos.

Neste caminho nós do Transcrim ficamos felizes com a realização do evento e esperamos contar com a participação de todos nas próximas edições do mesmo que esperamos manter de forma regular.