segunda-feira, 8 de janeiro de 2018




O que a rebelião no presídio semi-aberto em Goiânia nos faz pensar

por Cristina Rauter

Os acontecimentos de Goiânia ilustram mais uma vez a extrema crueldade com relação aos mais pobres no Brasil, já que os que estão ali são oriundos, em sua maioria, dos estratos mais pobres da população. Um dos presos mortos tinha 21 anos, era primário e recém condenado por roubo.
 Dois agentes penitenciários também pereceram, possivelmente responsabilizados pelo que não era de sua alçada resolver. Mais uma vez, mulheres, mães, esposas, irmãs, acompanham os acontecimentos em desespero sem despertar muita compaixão, já que o pensamento dominante é o de que os mortos e feridos mereceram o castigo por terem cometido crimes, opinião externada por um conhecido político apoiador confesso de torturadores. No Brasil do pós inpeachment todo esse zelo punitivo é a um só tempo cínico e trágico.
A prisão e sua naturalização, a tortura e os maus tratos e sua naturalização, fornecem um triste retrato da sociedade em que vivemos. Um presídio semi-aberto só é palco de rebeliões quando a condição de semi-aberto não é respeitada - com frequência os presos teoricamente em regime semi-aberto não estão trabalhando como deveriam, impedidos por emaranhados burocráticos ou pelo que podemos chamar de "militância em prol do encarceramento" que pode influenciar os juízes da execução no país que tem a terceira maior população carcerária do mundo. Pode-se estar num presídio semi-aberto e na verdade estar num "semi-fechado" como os presos preferem chamá-lo, face à dificuldade de efetivamente poder trabalhar e retornar ao presídio após um dia de trabalho. No Estado do Rio de Janeiro a farsa foi longe demais: presos passam o dia numa praça próxima ao presídio sem ter o que fazer, e sem almoço. Retornam ao presídio ao fim do dia, para ao menos fazer uma refeição e dormir. É a versão carioca da progressão de regime, que afeta somente os mais vulneráveis.

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